A Era da FinTech

* Texto originalmente publicado na revista do Instituto Confúcio

A China é hoje a estrela mundial do mercado FinTech, como é chamado o casamento entre tecnologia e finanças, numa simbiose para levar a muito mais gente diversos serviços financeiros mais baratos do que os oferecidos pelas instituições tradicionais. Só o AliPay, um dos aplicativos que permitem o pagamento de serviços e produtos sem intermédio bancário ou de cartões de crédito, tem uma base de 400 milhões de usuários ativos no país, mais da metade dos 720 milhões de internautas chineses. Destes, 95% estão conectados via smartphones.

Se pensarmos que 45% da população ainda está fora da rede, há muito espaço para crescer. Some-se o incremento da classe média: expectativas mais otimistas preveem que, em 2030, essa faixa terá saltado dos atuais 200 milhões para 1 bilhão de chineses, o que mostra o quanto o movimento é atraente. Ainda mais com uma rede 4G sólida tanto no meio urbano quanto na zona rural. O plano do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação chinês é garantir cobertura 4G – e até 5G em algumas partes, com fibra ótica – em todo o território nacional até o ano que vem.

Mas afinal, de que trata mesmo a FinTech?

As plataformas FinTech abrangem de pagamento online a gestão de investimentos, soluções para empréstimos e financiamentos, além de serviços de seguro e, claro, uma rede de segurança e big data necessária para que a engrenagem funcione. Essas plataformas agregam uma parcela considerável de consumidores que interagem de um jeito diferente com serviços financeiros, muitos dos quais sem a ação de instituições financeiras tradicionais. Eles estão em busca de um ativo essencial em uma sociedade onde o tempo é escasso: a comodidade. Pelo menos essa é a aposta de um dos principais estudiosos do tema na China, o economista Chen Long, ligado ao Instituto de Internet Financeira da Universidade de Pequim, uma das mais prestigiosas do país. Para ele, a conveniência proporcionada por produtos financeiros disponíveis em poucos cliques já criou um novo estilo de vida, o FinLife, que tem cada vez mais adeptos na China. O setor ganhou impulso porque os serviços oferecidos realmente importam para os cidadãos. Sem contar o fato de serem mais baratos em comparação aos tradicionais, pois as transações ocorrem, do início ao fim, apenas em ambiente digital, reduzindo custos com recursos humanos e físicos – prédios, manutenção, entre outros.

Claro que há mais apostas para identificar os ingredientes da receita que resultou em sucesso, entre os quais a baixa financeirização, digamos assim, da sociedade. Além disso, os bancos tradicionais – a maioria pertencente ao governo – sempre focaram em grandes corporações; indivíduos, micro e pequenas empresas ficavam então carentes de empréstimos, financiamentos e demais soluções de investimento e crédito.

Há quem aposte na vantagem de a maior parte dos chineses ter ficado à margem dos modelos financeiros que conhecemos e poder ser incorporada ao ecossistema FinTech sem ter de migrar de um modelo anterior. É incrível, mas muita gente sequer terá um cartão de crédito ou débito, ainda que possua conta no banco. E, na China de hoje, esse contingente já está, em grande parte, inserido na esfera de consumidores FinTech.

O termo pode soar novo, mas não é uma exclusividade chinesa. O movimento FinTech também existe em outras partes do mundo, com focos no Vale do Silício, Londres, Japão e Cingapura. Só que o crescimento exponencial fez do ecossistema chinês o mais vigoroso. Um dado atesta a força avassaladora da FinTech chinesa: em 2016, esse mercado movimentou US$ 5,5 trilhões em pagamentos via aplicativos e outros sistemas digitais. Nos Estados Unidos, o montante foi de US$ 120 bilhões – ou quase 50 vezes menor – no mesmo período.

No Brasil, duas empresas FinTech já são relativamente conhecidas do público. São elas o Nubank, que oferece cartão de crédito com taxas mais baixas e serviços mais enxutos e conquista uma fatia até então desinteressada por esse tipo de produto, e o GuiaBolso, uma startup que chegou com a promessa de controlar os gastos cotidianos do usuário, mas que hoje, aliada a bancos, já promove uma plataforma de empréstimos, com uma receita experimentada na China: a integração permite uma análise rápida (quase instantânea) dos dados do cliente, praticamente um dossiê para atestar se o usuário será ou não um bom pagador, podendo efetuar a transferência da quantia pedida em poucos segundos.

E aí entra em cena outra peculiaridade: o que faz da China um mercado FinTech tão importante não é só a inovação, pois a utilização de big data integrado a bancos de dados não é receita chinesa. O que o torna tão robusto é a confiança dos consumidores e a própria escala do mercado, além de uma regulação mais flexível, justamente porque o sistema financeiro ainda está – ou estava – aquém dos estruturados em países como Estados Unidos e Brasil.

Mesmo não sendo novidade ou exclusividade, vale contar como se deu essa integração na China, e a empresa Alibaba é central nesta história. Em maio de 2003, o conglomerado de Jack Ma, todo-poderoso da Alibaba, ainda não era a potência que é hoje, com um valor de mercado de US$ 262 bilhões. E foi naquela época que lançou o portal de compras Taobao, uma solução online para conectar vendedores – muitas vezes individuais e com um estoque limitadíssimo – a compradores.

A ideia era que fosse uma plataforma B2C (de empresa para consumidor), mas muitas vezes era quase um trabalho C2C (de consumidor para consumidor), que lançava ao sucesso empreendedores individuais ou familiares dos mais remotos rincões da China, desde que tivessem acesso à internet. Porém havia um empecilho: o meio de pagamento para efetuar a transação. Como poucos tinham cartão de crédito, cheque ou mesmo conta bancária, era comum ouvir histórias de gente que levava o valor total em dinheiro vivo até para fechar a compra de carros e apartamentos. Nas vendas online, e com a distância entre vendedor e comprador, o sistema tinha sérios obstáculos, ainda que cativasse mais e mais usuários ou pessoas com vontade de experimentar.

E então, um ano depois do Taobao, a Alibaba lançou outra subsidária, a AliPay, plataforma que, conectada a uma conta bancária e um documento de identidade oficial do usuário, garantia o pagamento online – num processo que eliminava a necessidade de cartões, mas permitia a efetivação do negócio. Foi um boom. Até porque, segundo o Banco Mundial, hoje, oito em cada dez chineses tem conta no banco.

O comércio eletrônico cativou o país. E continua cativando. A China atingiu no ano passado 47% do total das vendas a varejo via internet, num negócio que movimentou quase US$ 899 bilhões. A AliPay já chegou a permitir 1 bilhão de transações em um único dia, com um pico de 120 mil por segundo. Para se ter uma ideia, a Visa, que atua globalmente, tem uma capacidade de gerenciar 24 mil transações por segundo.

Claro que nem todo o pagamento é feito via AliPay ou empresas semelhantes, como o WeChat Pay, conectado ao superaplicativo WeChat da concorrente Tencent. Mas a adesão ao comércio eletrônico indica a confiança dos chineses, também aficcionados pelas soluções O2O, isto é, serviços oferecidos online e finalizados offline. É o caso das promoções de sites de descontos, como o brasileiro Peixe Urbano (recentemente comprado por outra gigante da internet chinesa, a Baidu), em que o desconto oferecido na plataforma digital vale de verdade no restaurante, no salão de beleza ou em qualquer estabelecimento da gama de produtos e serviços oferecidos por ali.

Tudo isso reuniu ao longo dos anos – e da adesão em massa dos chineses – uma infinidade de informações que, combinadas, permitiram analisar o perfil dos usuários e identificá-los como bons ou maus pagadores. Importante notar que os serviços individuais FinTech envolvem um montante pequeno de dinheiro – muito abaixo da linha de mil dólares – e, portanto, oferecem menor risco de quebra ou falta de liquidez para as empresas, ainda que haja inadimplência. O rastro deixado pelos compradores nos sites de comércio eletrônico também mostra a média de gastos e contribui em muito para o setor na China, que obteve uma ferramenta de análise de crédito poderosa, acessível e barata, desde que se disponha de processadores de dados pesados para cruzar informações relevantes.

Ainda que seja um mercado que começou a estruturar-se há poucos anos na China (a partir de 2013), o país é a estrela de todos os relatórios das grandes consultorias de negócios, entre as quais a KPMG que, junto à australiana H2Ventures, elabora um ranking das maiores e melhores empresas FinTech do mundo. Em 2016, cinco das 10 maiores são chinesas: a queridinha dos empréstimos individuais AntFinancial (subsidiária do Grupo Alibaba, que tem todo o aporte do banco de dados de gigantes, como TaoBao e AliPay), a Qudian (plataforma de microempréstimos), a Lufax (serviço de gestão de investimento), a Zhong An (seguros) e a JD Finance (ampla carteira de serviços financeiros que inclui empréstimos, seguros e gestão de investimentos, entre outros).

Muitas delas – e de uma gama de FinTechs que se proliferam no mercado chinês – são também o que se chama de “unicórnios”, as startups do meio avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. A capacidade de crescimento surpreende. A KPMG aponta no relatório que, em 2014, havia uma única empresa chinesa entre as 50 maiores. Hoje são oito, e com um detalhe: entre as cinco primeiras, quatro são da China. Aliás, no topo do seletíssimo grupo, está a AntFinancial, mais velhinha de todas, fundada em 2003. As demais foram criadas nesta década. A caçula é a também chinesa Qudian, que nasceu em 2014 e em dois anos já figurava na lista global da KPMG.

A capacidade de começar um novo negócio capaz de levar a startup rapidamente ao topo abre espaço para discutir a segurança dos usuários e do próprio sistema financeiro, o que acende o alerta também no governo, responsável por regular o mercado. A China percebe muito bem a dimensão dessas oportunidades e riscos, tanto que o tema da necessidade de regular de forma adequada o universo FinTech é recorrente nos discursos da mais alta liderança do país, como o primeiro-ministro, Li Keqiang, e o presidente, Xi Jinping. O objetivo é monitorar, sem restringir, a atuação de um setor que está transformando o jeito como os chineses consomem, garantindo crédito e outros serviços financeiros de forma mais barata e permitindo um incremento importante ao gigantesco mercado interno. Uma revolução a partir da tela do celular.

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