Castelos de Gelo

Esse artigo foi originalmente publicado na Revista do Instituto Confúcio

 

Diversão e fantasia abaixo de zero: assim é o Festival Internacional de Gelo e Neve de Harbin, cidade do extremo nordeste da China onde, durante o inverno, as temperaturas oscilam entre -12oC e -20oC durante o dia e costumam ser ainda mais gélidas à noite, se é que dá para imaginar isso. De fora, ficam só os olhos e, ainda assim, volta e meia se veem cílios com gotículas congeladas, formadas pela própria respiração ou pelo vapor das panelas fumegantes das comidas de rua.

Pode parecer difícil de encarar, mas já são mais de um milhão de turistas na cidade a cada edição. Eles viajam entre 5 de janeiro e o final de fevereiro, quando ocorre o evento, que está entre os quatro maiores do gênero no mundo. Rivaliza em tamanho com os festivais de inverno de Sapporo, no Japão, em Quebec, Canadá e na montanha de Holmenkollen, em Oslo, Noruega.

As esculturas se espalham pela cidade inteira, mas as maiores exposições se concentram em três parques incríveis: um dedicado ao gelo, dois outros à neve. As propostas também são diferentes. No Mundo de Gelo e Neve, luzes colorem os prédios, tobogãs e toda a sorte de formas. Já nos parques Sun Island e Songhua, esculturas branquinhas reluzem ao sol, e ainda há várias opções de esportes de inverno. Divertimento garantido!

Os detalhes e as dimensões impressionam. A cada ano, as esculturas batem novos recordes e chegam a ultrapassar os 50m de altura, o que equivale a um prédio entre 16 e 18 andares. Olhe para cima, para os lados, para baixo. A explosão de cores é fantástica. E atenção, capriche no fôlego para passear bastante, porque você vai precisar.

No parque colorido, as réplicas de edifícios famosos emocionam os visitantes, como é o caso do Templo do Céu, cujo original em madeira está em Pequim, e que neste ano aparece em gelo entre outros marcos da arquitetura mundial, como o russo Kremlin, ou prédios saídos da imaginação dos escultores. Por falar neles, nas semanas que antecedem o festival, dez mil artistas trabalham dia e noite para deixar tudo pronto.

Pudera! São mais de 800 mil metros quadrados de área construída com 330 mil metros cúbicos de gelo e neve – e muitas luzes de led, cuidadosamente colocadas em canaletas feitas nos blocos de gelo, encaixados uns aos outros como peças de um lego gigante. Dragões, animais diversos, pagodes e vários motivos chineses também compõem esse reino tão surreal como encantador. No parque de gelo e luzes, um tobogã de 340m, construído graças ao trabalho de 600 escultores, promete fazer a alegria. A maior parte do gelo é retirada em placas grossas do Rio Songhua, que corta a cidade de Harbin. Além de fornecer matéria-prima para o festival, o rio congelado vira pista para esqui e patinação. Nada melhor do que aproveitar esse cenário glacial e fazer dele um aliado, mesmo com o frio, é interessante para toda a família: bem agasalhada, qualquer criança pode curtir por ali.

Ficou curioso? O festival começa todos os anos na mesma data, 5 de janeiro, e se estende até o final de fevereiro, conforme as condições climáticas: lembre-se de que é preciso estar bem frio para que tudo se mantenha intacto. Em várias edições, ocorrem testes antes da abertura oficial, então, com sorte, é possível visitar ainda em dezembro. Mas se for marcar viagem, melhor não deixar para muito antes ou muito depois.

Vale lembrar que essa época do ano coincide com a temporada do Festival da Primavera, o Ano-Novo Chinês, quando se vê o maior fluxo de viagens do planeta: são milhões de pessoas aproveitando o tradicional período de festas entre janeiro e fevereiro para passear com a família ou, simplesmente, voltar para casa. No feriadão, como é de se esperar, o movimento de turistas dispara e os hotéis e atrações lotam. Fique atento.

Para ver mais do festival, são necessários pelo menos três dias na cidade. Isso porque a parte das luzes coloridas é, obviamente, mais interessante à noite (que, no inverno, chega rápido: o sol se põe às quatro da tarde). Já as esculturas de neve são mais interessantes durante o dia, quando os imensos blocos esculpidos em branco contrastam com o azul do céu.

É preciso bastante “gás” para os passeios, não só por causa do frio, mas porque se anda muito. As atrações podem ser vistas por fora e também por dentro: alguns prédios de gelo são abertos à visitação. Há até um bar todo de gelo, dos copos ao balcão, mesas e bancos. Para quem prefere algo mais tradicional, vários cafés instalados pelos parques oferecem temperaturas amenas e bebidas quentes. Nos passeios para ver as esculturas, também dá para curtir alguns esportes de inverno ou fazer um passeio de trenó puxado por cães.

Mas não são só curiosos e apaixonados pelas baixas temperaturas e por gelo que visitam os parques. Grupos de amigos e de famílias elegem Harbin na época do festival para fazer suas reuniões, assim como noivos que se casam por ali ou usam a cidade e suas atrações como cenário para os tradicionais álbuns de casamento, triviais na cultura contemporânea chinesa e quase tão importantes quanto a própria festa. A maioria desses álbuns, com sessões de fotos extremamente profissionais, é feita com meses ou semanas de antecedência à celebração do matrimônio.

Enfrentando o rigor do inverno

Agora, mais do que energia para trilhar os parques e a própria cidade é preciso estar vestido apropriadamente para a temperatura. Com o rosto descoberto, primeiro procurei me proteger com um cachecol. Não teve jeito, a primeira tarefa antes de qualquer passeio foi procurar um protetor de veludo para a boca e o nariz, pois mesmo a brisa que sopra é implacável.

A roupa ideal é a de esporte na neve, com tecidos especiais para encarar tantos graus negativos. Luvas – bem grossas, como as que se usam em estações de esqui – e gorros são fundamentais. Elas até podem atrapalhar para fazer as fotos ou filmar, então vá apurando a técnica de clicar com luvas enormes nas mãos e com um campo de visão às vezes mais restrito por gorros e capuzes, além de grossos cachecóis de lã. Outra peça que requer cuidado especial: sapato. O melhor é usar botas apropriadas para o gelo, com boas garras, porque é facinho escorregar e cair no chão, pois qualquer acúmulo de água sobre a calçada congela, não há resquícios de poça. Outra dica: um revestimento em pelo é fundamental para manter os pés aquecidos.

Um aviso importante: pode ocorrer de baterias de máquinas e celulares pararem de funcionar com o frio intenso, especialmente nos passeios à noite. Se isso acontecer, procure um dos vários cafés dos parques e aqueça seu equipamento com auxílio das luvas e cachecóis. Em geral, logo voltam a funcionar, e é hora de retornar ao ar livre para captar mais imagens.

Influência russa 

Conhecer a cidade não é apenas procurar gelo e neve. Harbin é uma graça, e tem muita história para ser contada. Outrora uma vila pacata de invernos gélidos e verões abafados, a metrópole regional começou a se desenvolver sob influência russa ainda no início do século passado, quando muitos russos migraram para lá. A primeira leva chegou com a construção da ferrovia Transmanchuriana, obra que até hoje existe num trajeto que integra a Transiberiana, a lendária rota em que se pode viajar de Pequim a Moscou. As heranças russas estão nas famílias, mas também na arquitetura, em restaurantes e até na cerveja local, a Harbin Beer, a marca mais antiga da China, cujo fabrico foi iniciado pelos russos. Aliás, até hoje há migrantes e descendentes na capital provincial. Entre os suvenires para levar para casa, há um sem-fim de memorabilia russa, o que pode confundir algum desavisado: afinal, onde estamos?

Para conferir esse passado e ver o que ainda se mantém nesse emaranhado cultural, o melhor é começar com um passeio pela principal rua da cidade, a Zhongyang Dajie, uma simpática avenida só para pedestres. Ali, há vários prédios neoclássicos de influência arquitetônica russa – e, claro, muitas esculturas de gelo nos meses de inverno. Alguns restaurantes oferecem pratos típicos russos, reforçando a ligação cultural estreita com o país vizinho.

O pão de centeio conhecido como 大列巴 dàliěba – nome decalcado no russo хлеб khliéb (pão), mais o adjetivo chinês 大 dà (grande) – é outra iguaria local, usualmente dada como presente pelos viajantes. É que esse pão, uma delícia redonda de 2,5 kg, não estraga em poucos dias e é ideal para levar como lembrança. Em geral, se come com a linguiça também trazida pelos russos e que os chineses chamam de 红肠hóngcháng. Para comprar ou experimentar esses produtos não é preciso, necessariamente, procurar um restaurante: eles são encontrados em padarias nas ruas principais.

Agora, uma visita imperdível é à Catedral de Santa Sofia, a maior igreja ortodoxa russa do Extremo Oriente. Construída em 1907, tem paredes vermelhas encimadas por cúpulas verdes, onde repousam cruzes douradas. O interior perdeu a riqueza de detalhes e as relíquias nos anos de guerra e ocupação, mas ainda assim vale entrar para ver a exposição permanente de fotos que contam a história de Harbin.

Natureza Selvagem

Outro passeio super bacana é ao centro de preservação de tigres siberianos, que estão na lista de animais em risco de extinção, a 15km da região central de Harbin. Nesse centro, eles estão protegidos e são objeto de intensa pesquisa, inclusive para reprodução. Ali, além de ver os animais de perto, em carros especiais para isso, é possível alimentar os mais novinhos, que ainda não estão na parte mais selvagem do parque.

Como chegar

Harbin fica a 1.200 km de Pequim. São duas horas de voo ou seis e meia de trem-bala desde a capital chinesa. Como é bem mais frio na chegada, leve já na mala de mão um bom casaco, porque será necessário ao desembarcar – nos ambientes climatizados do avião e do trem você não sente a temperatura para lá de negativa. Mas ao abrir a porta… brrrrr. Outra solução interessante é comprar uns adesivos que esquentam quando são tirados da embalagem e produzem um calorzinho bom por oito horas. Não devem ser colados direto na pele, mas sobre as camisetas usadas como roupa de baixo, nomalmente na região lombar. Os pacotinhos de adesivos podem ser adquiridos em redes de farmácias ou de higiene pessoal e são bem fáceis de achar no inverno.

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