DiDi acelera desenvolvimento de startup brasileira

A primeira semana de 2017 começou com uma notícia animadora para a 99, antiga 99Táxi, o app de agendamento de táxis e, agora, de caronas: é a startup brasileira a receber o maior aporte de uma companhia chinesa, a quase parente DiDi.

Estadão, Exame e Valor dizem que a chinesa injetou US$ 100 milhões na 99. Na mídia brasileira, a companhia asiática apareceu na capa de todos os portais noticiosos sob a alcunha de Uber chinês, um jeito fácil de tentar explicar o que é a companhia e recorrente para outros produtos da infosfera chinesa: Weibo é o Twitter chinês, WeChat é o WhatsApp chinês, e por aí vai. Existe o que a gente conhece no Ocidente e o que os chineses copiam. Mas a história não é bem assim. Não é nada assim.

Há tempos que os serviços das startups chinesas de internet e mobile vão muito além de copiar ou emular os pares ocidentais, embora seja impossível não perceber que eles são inspiração óbvia. O Weibo, dito Twitter chinês, é um grande exemplo. O serviço é um microblog com limite de caracteres, a exemplo do primo famoso norte-americano, mas já em 2011, pouco depois de ser lançado, oferecia funcionalidades que o pioneiro não tinha: a possibilidade de chat com a rede de contatos – como vemos no Messenger incorporado ao Facebook ou no InstaMessenger, por exemplo – além da possibilidade de responder a um texto diretamente na caixa de postagem, como acontece no Facebook.

Poucos anos depois, ao post foi incorporado também um carrinho de compras, o que é eficaz para as marcas que oferecem por ali seus produtos, numa aliança entre o Weibo e o grupo Alibaba, gigante da internet chinesa que surgiu justamente com foco no e-commerce, isso lá em 1999. Hoje, a companhia expande os tentáculos para diversas áreas, com um sucesso estrondoso em internet financeira, ou finanças via internet, ou a FinTech, para usar um termo mais bacaninha. E toda esta história que permeia várias empresas da nova economia tem tudo a ver com a DiDi.

A companhia surgiu em 2012, quando Cheng Wei, um executivo de baixo calibre da Alibaba, cheio de ideias na cabeça e perto de completar 30 anos, achou que a londrina Hailo seria uma ótima startup a ser imitada na China: ela permitia acionar os black cabs de Londres. Conseguiu aporte financeiro de um colega e juntos abriram a DiDi, mas a concorrência pipocava pela China porque vários outros também conheciam a Hailo, o Uber e tantas outras da febre da economia compartilhada que permitiam ir de um ponto a outro de uma maneira mais barata e mais prática. Mas por que, então a DiDi deu certo?

Existe uma lei no ecossistema das startups chinesas: para chegar ao topo, é preciso estar associada a um dos três players locais de peso, Baidu, Alibaba ou Tencent, conhecidos por lá com o BAT. A Alibaba, antiga empregadora de Cheng, já surfava a onda dos carros, caronas e táxis chamados via aplicativos com o serviço Kuaidi Dache, o principal rival da Didi. Ou seja, não adiantaria tentar uma aliança. Cheng, então, procurou a Tencent e ali viu seu negócio disparar. Era 2014, e com a integração ao serviço de pagamento da Tencent, operado via WeChatPay, ficou muito mais fácil para os usuários da DiDi pagarem pelo serviço, sem necessidade de dinheiro ou cartão de crédito, artigos quase em extinção para mais de 400 milhões de usuários dos serviços financeiros da grande nuvem chinesa.

A DiDi começou com serviço de reserva de táxi – há quem diga que é impossível embarcar em um nas horas do rush sem o uso de aplicativos – e hoje oferece serviços tais quais o Uber, cuja operação chinesa foi vendida em 2016 para a própria DiDi, além de reserva de ônibus e aluguel de bicicletas. Ainda há soluções corporativas, e a empresa diz que sua missão é garantir transporte aos usuários – um serviço longe da melhor qualidade nas megalópoles chinesas, que sofrem com intensos, frequentes e quilométricos engarrafamentos. Ah, vale dizer que em 2015 a DiDi já havia comprado a operação da Kuaidi Dache, liderando absoluta desde então no mercado chinês.

Agora, é a hora de chegar a um novo continente. Do Brasil, quer expandir negócios para a América Latina. Em casa, já está em 400 cidades, e os investidores avaliam que a empresa valha US$ 35 bilhões. O Uber, disponível em 500 cidades de seis continentes, vale US$ 68 bilhões.

A DiDi não quer só valer mais. Segundo Cheng, o CEO, que em 2014 já apostava que o Uber não levaria a liderança na China, a empresa, e várias outras do seu ecossistema altamente integrado, vão ser as principais referências da economia compartilhada no mundo. Com uma população de mais de 200 milhões aficionada por serviços móveis, antenada aos aplicativos e ávida por poupar aqui e ali, o Brasil pode ser uma das principais testemunhas desta história. E, talvez, num futuro nada distante, poderemos falar que algo recém lançado no Ocidente é uma cópia da startup chinesa líder mundial, pegando carona na inovação que Made in China.

Aliás, é justamente este foco da 99, segundo os porta-vozes: aprimorar produtos e serviços com a parceira. A DiDi terá assento no Conselho da companhia brasileira.

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