É preciso ser menos tímido ante a China

Texto originalmente publicado no livro China – Passado e Presente, de Rosana Pinheiro-Machado

O Brasil ainda precisa descobrir a China. Essa é a conclusão óbvia ao acompanhar a evolução do país desde 2007 até o início do governo Xi Jinping, o presidente que quer construir o sonho chinês. Ele significa incrementar a renda dos chineses nas esferas urbanas e rurais, estimular o consumo interno – de bens nacionais e importados – e promover mais acesso ao bem-estar social, ampliando a cobertura dos sistemas previdenciário, de saúde, e educacional e, claro, com foco em uma urbanização mais planejada. Hoje, já são cerca de 53% dos 1,35 bilhão de chineses vivendo nas cidades.

E o que nós, brasileiros, temos a ver com isso? Muita coisa, se pensarmos que a China é o maior parceiro comercial do Brasil. Cabe agora trabalhar para transformá-lo no melhor parceiro comercial. É uma das premissas do governo Dilma Rousseff ampliar a pauta de exportação verde-amarela à China. Ao empresariado brasileiro, o recado é um só: não espere apenas por ações governamentais. Há espaço na China.

É preciso empenho – e investimento – para conquistar corações e mentes chineses. A competição é cada vez maior – com marcas estrangeiras e chinesas. Mas se é difícil entrar e explorar esse mercado, é mais difícil ainda virar as costas para ele. É um dos únicos do mundo que esbanja fôlego em termos de crescimento. E chegar à China pode significar ainda ganhar outros espaços do Sudeste Asiático. E isso pode fazer toda a diferença para quem pensa em internacionalizar negócios.

Somos ainda tímidos em relação à China – e isso não tem a ver apenas com o mundo dos negócios. No campo acadêmico, há pouca pesquisa partindo das universidades brasileiras. Os intercâmbios quase não são explorados. Em 2012, das 5 mil vagas do programa federal Ciências Sem Fronteira oferecidas para a China, nenhuma foi preenchida. Não que falte espaço para projetos ou qualidade na educação chinesa. Um exemplo de quem está na contramão é a empresa catarinense Embraco, em Pequim desde 1995 por meio de uma joint venture com um parceiro local. Em março de 2013, a companhia lançou o 3º Prêmio de Inovação, no qual concede US$ 100 mil para universitários chineses que desenvolvam sistemas eficientes, vendáveis e ambientalmente corretos para o setor de refrigeração. Há talentos no país asiático, assim como há pesquisa e desenvolvimento e boas trocas a serem buscadas em diversas áreas do conhecimento.

Ante tanta timidez, o que mais falta é entendimento entre estas duas culturas. Estamos distantes não apenas por uma questão geográfica, mas por falta de uma visão estratégica. Em termos de comunicação e mídia, a presença brasileira é quase risível. O número de correspondentes fixos nunca passou de quatro – e pode cair para um -, e profissionais que pensam em uma comunicação efetiva entre públicos tão diversos quanto chineses e brasileiros são escassos. E daí surgiu o conceito da empresa Radar China, criada em 2011 a fim de promover empresas e iniciativas brasileiras na China.

É clichê a expressão “uma ponte entre duas culturas”, mas este é o único caminho para não se desperdiçarem as oportunidades no mercado chinês. Ou mesmo não encará-las. Outro clichê para ilustrar: chinês prefere chá a café. Será? A China deverá se tornar o segundo maior mercado da marca Starbucks em 2014, perdendo apenas para os Estados Unidos. No ano seguinte, o objetivo é que o país asiático tenha 1,5 mil lojas da marca – fechou 2012 com 700. Eles entenderam que café na China é estilo de vida, não só uma bebida. É elegante tomar café, afinal.

coffee

O Brasil tem algum posicionamento para vender seu café? Não. Há iniciativas esparsas e nenhuma de destaque, ainda que o produto brasileiro tenha reputação internacional em termos de qualidade. Daí, o recado: o Brasil precisa parar de olhar para a China só como um potencial investidor nos inúmeros projetos logísticos de que o maior país latino-americano carece ou como o vilão que desmontará a indústria nacional. E nem sempre o preço salgado pelo qual um produto brasileiro poderá ser oferecido no mercado chinês será o principal entrave. Basta que o produto seja bem posicionado, assim como o próprio Brasil.

Talvez fosse a hora de o país começar a criar uma identidade. Os chineses pouco sabem sobre o Brasil. Falam do samba, do futebol – entre cujos ídolos a única exceção para as estrelas que brilham ou brilharam na Europa é o Pelé -, do ex-presidente Lula e do fato de o país integrar os BRICS. A praia não é o que atrai. Vender as belezas de Copacabana pode ser fácil, mas será que funciona? Um país que tem uma metrópole vibrante, economicamente ativa e maior centro de consumo de luxo do Brasil como São Paulo poderia explorar este viés na divulgação chinesa. O lado urbano e criativo do Brasil, colorido, do design, podem ser outros chamarizes de peso. Bossa Nova também vende. Em termos de natureza, o que atrai o chinês são as Cataratas, em Foz do Iguaçu, um dos principais destinos das missões de negócios ou de turistas chineses no Brasil. Olhamos para tudo isso com seriedade e estratégia? Buscar oportunidades na China é estar pronto para a adaptação, algo como assumir a personalidade de um camaleão. O negócio, o produto pode ser exatamente o que se oferece no Brasil, mas a roupagem tem de adotar características chinesas. É difícil, mas não é impossível.

Em 2007, ainda novata no país asiático, aprendi que o bom humor é o melhor remédio para enfrentar as ciladas que o abismo cultural que nos separa acaba preparando. É menos pior do que parece, e o interessante é assimilar as diferenças como prova de que os povos deste mundo globalizado ultraconectado podem manter peculiaridades.

Nestes anos de vida chinesa, acumulei alguns saberes, que somados ao bom humor podem facilitar a vida de quem planeja chegar à China para trabalhar ou buscar negócios: mostre estratégia e objetivo em sua iniciativa, além de conhecimento sobre algum ponto da cultura chinesa. Entenda que o tempo chinês é outro, e é preciso paciência para conquistar a atenção e o reconhecimento de seu interlocutor. Seja, principalmente, persistente. Os resultados de um novo negócio podem não aparecer no primeiro ou no segundo ano. Mas, de novo, se é difícil estar em solo chinês, é mais difícil ainda virar as costas para ele.

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Em tempo: Hoje o Brasil não tem nenhum correspondente vivendo na China.

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