O retrato do Mao

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Mao Zedong é a personificação de o que é a China hoje, líder político cujos feitos marcaram uma nova era no país. Às vezes, as referências maoístas são tantas que até parece que foi sempre deste jeito, mas não. Estampado em cada uma das notas do dinheiro local, o Renminbi, ou Yuan, o Timoneiro já foi alçado à ícone na Pop art ocidental, como um dos principais modelos de Andy Warhol, o pai do movimento, que se inspirou no retrato oficial do líder chinês pendurado na entrada da Cidade Proibida, em Pequim. Isso era 1973.

Mao já estava no portão da Cidade há muito tempo, desde antes da fundação oficial da Nova China, em 1949, de boné e roupinha comunista surrada, um estilo que durou pouco. Abaixo, ele aparece com outro líder revolucionário, Zhu De.

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A estreia como líder inconteste foi em 1º de outubro de 1949, quando o líder apareceu sozinho e mais sério no pórtico. O primeiro retrato como presidente já o mostrava sem boné. E cabeludo. Mas esta passagem também foi breve. Um ano depois, tomadas as providências mais urgentes, era hora de trabalhar o culto ao revolucionário.

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Foram selecionados 30 estudantes do Instituto de Arte de Beijing, e coube  a Zhang Zhenshi a tarefa do retrato oficial.

De 1950 a 1964, Zhang foi o responsável por pintar o quadro a óleo de 6m x 3m, que baseado em fotos oficiais, evoluiu conforme avançava a idade de Mao. E o icônico líder – àquela época nem tão icônico, e sim enclausurado na república hermética – foi perdendo os cabelos.

Em 1967, um detalhe sutil mudaria o retrato e revelaria um cacoete chinês: o de interpretar as mensagens subliminares nas artes visuais. Esporte nacional, as interpretações de obras já renderam boas dores de cabeças, provocaram perseguições e prisões, especialmente nesta época, a do início da Revolução Cultural (1966-1976).  Mao, que assim como Warhol se apropriou, aparecia até então com apenas uma orelha voltada ao exterior, passou a ter as duas retratadas, numa tentativa de mostrar que ele ouvia a todos durante a revolução, e não apenas a selecionados do seu grupo de camaradas. O resultado perene é esse:maofinal

 

Depois do retrato oficial de Zhang, a única mudança foi a pintura em preto e branco somente por um curto período, após 9 de setembro de 1976, quando o retratado morreu, em sinal de luto. Depois voltaram as cores e o quadro só é trocado para se manter sempre novo em folha.

E ele se renova em outros objetos, de canecas a camisetas, relógios e bolsas, passando pelas notas. De 1 a 100 yuans, ou seja, a maior unidade da medida da moeda chinesa, lá está ele.

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Na China, a velha dúvida sobre se Jesus Cristo ou John Lennon é o mais famoso nem tem vez. Houve brasileiro que já foi perguntado em terras chinesas:

– Quem é esse?

Era um chinês que via uma imagem do Redentor, sim, o Cristo que está de braços abertos sobre a Guanabara.

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