Pequim, cidade infinita

Texto originalmente publicado na Revista do Instituto Confúcio

Parece até automático: pisar na capital é querer entendê-la. Compreender os costumes de sua gente. Captar a síntese do povo chinês. Esforços vãos. Pequim é um caleidoscópio, e cada movimento significa encontrar uma constituição única, que pode mudar ao cruzar outra rua, outro bairro.

Vivi em Pequim de 2007 até 2013. Morei em seis bairros diferentes. Difícil dizer o preferido, nem creio que haja algum. A cidade e seus lugares são um passeio às tradições imperiais, ao legado do último século e ao futuro que se constrói não só para os moradores, mas para o mundo. Atrai gente de todas as regiões chinesas, e é um polo de moradores e turistas oriundos de pontos famosos do globo, mas também daqueles até então ignorados em minhas explorações geográficas.

Escrever sobre Pequim é transbordar boas lembranças, como a do primeiro passeio, três dias depois de chegar à capital, num junho de temperaturas altas, típicas do verão do norte chinês. Numa época em que telefones eram qualquer coisa, menos “smart”, e que nem se pensava em ter um aparelho com mapas para acessar, o procedimento era ir à banca e comprar um mapa impresso, grandão: eu queria chegar à Praça da Paz Celestial.

Incrível como isso remete à facilidade com que se fazem as coisas numa cidade em que, pelo menos para mim, tudo sugeria incompreensão: eu não lia, nem falava o mandarim. Ao ver uma loja da calçada, podia se tratar de uma papelaria ou uma funerária. Pelo menos era assim no início, quando eu era uma total analfabeta ante a profusão de caracteres.

Apesar disso, nada era complicado. A explicação pode ser a abundante sinalização em inglês ou em letras romanas nas ruas e avenidas – e em alguns pontos comerciais mais próximos dos estrangeiros – e um povo sem preguiça para ajudar. Ou, para ser mais romântica, o segredo está em chegar de coração aberto, num espírito de descoberta e aventura. Uma certeza, lendo tanto antes de embarcar, eu tinha: a cidade era segura. E o melhor, continua sendo.

Entrei no metrô, na linha 1, uma mítica rota que cruza Pequim de leste a oeste, ao longo da principal avenida da capital, a Cháng’ān dàjiē, onde está a Praça e também a Cidade Proibida. Sempre abarrotada, a linha ainda assim não oferece nenhuma dificuldade, pois a voz que anuncia as estações indica o destino também em inglês. E ali desci na Praça da Paz Celestial. Foi mágico.

Em poucos passos eu voltava à superfície e via o retrato de Mao Zedong emoldurado pela entrada da Cidade Proibida. No outro extremo da Praça, o mausoléu do líder protegido pelo Portão Qiánmén, antigo posto de guarda e controle que registra a arquitetura dinástica, de vermelho escarlate, para contrastar com os prédios governamentais cor de pedra à moda soviética dos anos de 1960 e que ladeiam a praça. É imponente e, até por isso, está em qualquer guia, mas é o registro mais forte que tenho dos primeiros tempos e parada fundamental. É genial, e é também um lugar inóspito, onde o frio ou o calor são inclementes. Não há muitas árvores, nenhum registro de banquinhos para sentar. E pode-se dizer que é só o pórtico de entrada para a Cidade Proibida, como era conhecido o antigo palácio imperial que serviu de casa para mandatários e cortes das dinastias Ming e Qing entre 1421 e a derrocada do último imperador, Pu Yi, já no início do século passado. E haja fôlego, pois dali até a saída na outra ponta são, pelo menos, mais duas horas de caminhada.

Acontece que caminhar é o programa mais bacana da cidade. Se é difícil apostar no canto preferido, é fácil dizer como é mais gostoso desbravar Pequim: a pé (com o auxílio do metrô, claro, cujas 18 linhas garantem que uma ou até duas das mais de 300 estações esteja por perto). A bicicleta, para quem não é medroso (eu nunca fui) é concorrente forte nesse quesito, mas mantenhamos a alegria da caminhada – com sapatos confortáveis, por favor!

O que vem à cabeça? Conhecer os 胡同 (hútòng), as vielas seculares do bairro histórico de Gǔlóu, onde ficam as Torres do Sino e do Tambor. Ali o tempo se confunde. Primeiro porque a vida passa mais devagar, ou parece passar. E também os velhinhos, as famílias, os vizinhos e a criançada que estão na rua para bater papo, sem pressa e sem nenhum traço de preocupação aparente, mostram que ainda há jeito de se viver em comunidade.

Antigamente, os hutong eram endereço dos abastados, fossem funcionários públicos ou gente que circundava a corte. São ruas umas mais estreitas que outras com casas muradas coladas na próxima, invariavelmente pintadas de cinza. O vermelho das lanternas chinesas, nas portas também vermelhas, quebra a monocromia. Na entrada, alguns detalhes valem o registro: os degraus atrapalham os espíritos, que têm mais dificuldade de entrar na casa. Os leões de pedra protegem a morada – em geral são um casal, ele com um objeto sob a pata, ela com um filhotinho. Esculturas lembrando livros ou instrumentos musicais ainda indicavam a profissão do patriarca. E um desavisado pode pensar: “Coisa estranha, não há janelas.”

As casas chinesas primavam pela privacidade. Cruzando a entrada, uma surpresa: um pátio no meio, um ambiente de convívio das famílias, num arranjo arquitetônico que os chineses chamam de 四合院 (sìhéyuàn). Havia, antigamente, até hierarquia para definir os cômodos do patriarca e, em seguida, dos filhos, por ordem de idade. Fato é que com o passar dos anos muitas dessas casas acabaram não só deterioradas, mas abrigando mais de uma família, ou famílias bastante numerosas, e a tradição deu lugar ao pragmatismo. Nem precisa dizer que “adeus, privacidade”, com tanta gente morando no mesmo lugar.

Curiosos de plantão – mas com vergonha de entrar na casa alheia – podem experimentar a delícia de um pátio antigo: vários acabaram virando restaurantes ou pousadas e hotéis. As noites em Pequim são ainda mais deliciosas com um jantar no Dali Courtyard,endereço da melhor comida na cidade ao estilo de Yunnan, onde a China encontra o Sudeste Asiático. Terminar com um drinque de despedida num bar ali perto, o Amilal, em outro siheyuan preservado, só que menorzinho, numa travessa da avenida 鼓楼东 (Gǔlóu Dōng), é um ótimo negócio.

É em outro hutong da região, o 宝钞 (Bǎochāo), que há um prato especial, agora típico da região em que está Pequim: os 饺子 (jiǎozi), espécie de ravióli com diferentes tipos de recheio e que podem vir fritos ou cozidos – estes, os meus preferidos. Ali um chinês simpaticíssimo conhecido como Mister Shi abriu um restaurantezinho de, no máximo, 10 mesas, e fez o que muitos locais da cidade fazem: criou um cardápio com algumas saladas e muitos, mas muitos recheios para os jiaozi. Só que o atendimento é tão especial que acabou virando atração imperdível. Como arranha um inglês, é comum ver o Mister Shi de papo com os turistas e moradores estrangeiros, grupos atraídos por outro detalhe: o dono criou alguns jiaozi em que o recheio vem também com queijo.

Na primeira vez, achei uma heresia, culinária local maltratadíssima, já que na China o ingrediente não faz parte de nenhuma receita de que se tenha notícia, muito menos aparece em lanches (bom, aparece, mas quando se trata de restaurantes ou lanchonetes ao estilo ocidental). Desconfiada, embarquei no pedido de alguns amigos e, bem, é preciso dar vários pontos para a estripulia gastronômica: Mister Shi e seus cozinheiros acertaram muito. Vale pedir, mas acrescente uma porção dos recheios sem queijo, porque tradicional é sempre tradicional. Os de porco são os mais comuns nas casas dos chineses.

Um cantinho da muralha para chamar de seu

Falando em casa dos chineses, pertinho de Pequim, a coisa de duas horas de carro, ou pouco mais de ônibus, fica a hospedaria do Lao Chen, um típico agricultor local que, ao abrir a casa para abrigar turistas eventuais, caiu nas graças dos visitantes chineses e estrangeiros e logo apareceu na internet. Começou a atrair hóspedes, mas não em número que assombre quem busca sossego. O que tem de especial por lá? Tudo, e com direito a um canto da Grande Muralha para explorar sem ter quase ninguém por perto.

A vilazinha onde Lao Chen mora com a mulher não tem mais que 200 habitantes. Os mais jovens já saíram, caso dos dois filhos. Um mora na cidade ao lado, o outro está na universidade, em Pequim, e passa ali os finais de semana, especialmente os que têm mais estrangeiros, já que fala inglês. Independente da língua, a comunicação acontece, então todo dia é dia de ir até o Lao Chen.

O passeio na muralha é inesquecível nesse trecho. Depois de uns 40 minutos no meio do mato, morro acima, chega-se ao primeiro posto de observação, meio em ruínas, mas um tanto imponente. É ali que se veem quilômetros de pedras serpenteando a cadeia de montanhas, e vem uma pergunta óbvia: como construíram isso? É uma sensação de magnitude do homem ante a natureza. A muralha é símbolo da resiliência e da resistência chinesas. Originalmente, vale o registro, foi construída para proteger o país da invasão dos povos do norte, como manchus e mongóis.

Lao Chen é, via de regra, o guia, papel assumido algumas vezes pelo filho mais novo. Do primeiro posto de observação traça-se a rota, uma de quatro horas de caminhada, outra de seis. Quem tem fôlego, pode arriscar a segunda. A recompensa está em refazer um caminho tão carregado de história e curtir o verde por ali. É um cenário que não lembra em nada o burburinho da metrópole. Ao voltar para casa, invariavelmente haverá uma comidinha caseira, chinesa, mas caseira, com produtos orgânicos produzidos no terreno aos fundos. Quem quiser dormir ali, terá outra experiência incrível: o café da manhã do interior da China. São pãezinhos em massa branca ao vapor, os馒头 (mántou), ovo cozido em uma infusão de chá e especiarias, e algumas verduras. Para beber, chá também. Dentre todas as vivências à mesa que tive, uma a que nunca me acostumei foi a falta do café. É feio, mas fãs da bebida podem – e devem – ter à mão pacotinhos de café solúvel para viagens rumo ao meio rural chinês.

De volta à cidade, em outro mundo 

Dos bairros onde morei em Pequim, talvez o mais peculiar seja Niujie, morada tradicional dos chineses da etnia hui, que professa a fé muçulmana. A região acaba reunindo outros chineses muçulmanos, estes da etnia uigur, originários do oeste do país e que falam uma língua aparentada ao turco e usam uma variante do alfabeto árabe. Niujie atrai quem procura lojinhas de comida halal e produtos regionais ou restaurantes típicos onde o cordeiro é o carro-chefe.

Antes do passeio gastronômico, vale conhecer a mesquita da região, a maior da capital chinesa, cuja construção ocorreu no ano 996. O lugar foi destruído no reinado de Gengis Khan e acabou passando por reconstruções e ampliações, mas é incrível se deparar com a arquitetura tradicional chinesa entremeada pela cultura islâmica. E um lembrete: as visitas não são permitidas a quem estiver vestindo shorts, bermudas curtas ou roupas com ombros de fora.

Com um pezinho no futuro

Uma metrópole com quase 24 milhões de pessoas, capital da segunda maior economia do mundo, tem muito de cosmopolita. E com tanta viagem ao passado, é hora de dar um pulinho na área futurística da cidade, o CBD, na região de国贸Guómào. Ali, um dos programas é subir até o bar Atmosphere, que fica no 80º andar do Hotel Guomao. Um café no final da tarde, quando o dia cai e as luzes de Pequim começam a se acender, é fantástico. A gente olha o vaivém lá embaixo e até filosofa: “Esse mar de carros tem mesmo a ver com o estilo zen chinês?” Pequim é mesmo intrigante.

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