PIB chinês mantém ritmo, cresce a 6,8%, e Brasil amplia possibilidades de parcerias

Com informações da agência de notícias Xinhua

O Produto Interno Bruto (PIB) da China cresceu 6,8% no terceiro trimestre, segundo anúncio do governo chinês nesta semana. Sobre o mesmo período do ano anterior, o incremento foi de 6,9%, números acima da meta de 6,5% prevista para este ano. O índice é sobre um PIB de US$ 12,1 trilhões, conforme mostrou o presidente Xi Jinping quarta-feira, na abertura do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, momento político mais importante do país em cinco anos e que deve referendá-lo no comando.

É o nono semestre seguido em que o crescimento trimestral chinês flutua entre 6,7% e 6,9%. E é importante que continue assim, a fim de que o governo alcance o objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2020, como anunciou. Para quem estava acostumado a falar nos saltos de dois dígitos da segunda economia do mundo, parece pouco, mas fato é que trata-se de uma revisão oficial da meta, ou a nova normalidade, para usar o jargão de Beijing, que traça um caminho de crescimento mais sustentado. Mas neste contexto, como fica o Brasil, que tem a China como maior parceiro comercial desde 2009, destino especialmente de commodities?

As exportações do Brasil, que vende 25% do que produz para a China, não devem ser afetadas. “A dinâmica do comércio do Brasil com a China está mais correlata ao que acontece no mercado de aço, por causa do minério de ferro, e ao que acontece com o consumo em geral, por causa da soja e do petróleo. O aço continua batendo recorde de produção, ou seja, se mantém a demanda pelo minério”, afirma o André Soares, membro não residente do Adrianne Arsht Latin America Center do Atlantic Council e ex-coordenador do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Tulio Cariello, coordenador de pesquisas do CEBC, acredita que não há mudança significativa para a relação sino-brasileira no curto prazo. “A China deve continuar importando basicamente produtos do agronegócio, recursos naturais e petróleo, que são fundamentais para a segurança alimentar, energética e de recursos minerais da China. Há que se observar que tais produtos podem apresentar oscilações drásticas de preço, o que pode eventualmente esfriar as exportações brasileiras em termos de valor”, afirma Cariello.

Mas o analista lembra outro aspecto: o da composição atual do PIB e das oportunidades que se apresentam ao Brasil. O consumo é central neste aspecto. Também segundo o presidente chinês, ao falar na quarta-feira, de 2013 a 2016, o consumo final contribuiu com 55% do crescimento econômico do país. No primeiro semestre de 2017, a contribuição do consumo para o crescimento saltou para 63,4%.

“Isso abre precedente para que empresas brasileiras possam pensar em estratégias de diversificação, podendo explorar novas áreas, como o setor de serviços e de produtos high-end, com vistas a atender uma crescente classe média chinesa”, diz Cariello.

Em artigo publicado nesta sexta-feira no jornal Valor Econômico, Soares também lembra do consumo como um drive importante do momento chinês, ainda que o país mantenha os investimentos estatais como elementos fundamentais para o fôlego econômico e que a aposta neste viés, somada a um direcionamento constante rumo à inovação, pudesse significar outra reconfiguração no padrão de crescimento, aí próximo ao patamar de 5%. Um movimento que o pesquisador, embora não aponte como certo, acredita que poderia ser tomado graças ao bom momento político para Xi Jinping. Hoje o presidente, também secretário-geral do Partido Comunista da China, congrega forte apoio dentro das instituições nacionais e regionais de seu país.

Se não se pode ainda apostar totalmente nesta direção, do consumo e da inovação como  novos pilares centrais do crescimento chinês, fato é que tais setores têm recebido cada vez mais atenção. E aí, o bolo do investimento tem um forte conteúdo privado. Segundo dados desta sexta-feira, o gasto da China em pesquisa e desenvolvimento (P&D) representou 2,1% do em 2016, chegando a US$ 233 bilhões. Deste total, 78% foram provenientes das empresas.

“A política de inovação está no cerne do pensamento econômico da China contemporânea. De certa forma, em muito se assemelha a estratégia do Japão, que passou de chão de fábrica no pós-guerra a um dos mais importantes players na área de tecnologia e inovação no mundo, permitindo que a pequena ilha no Pacífico chegasse em dado momento a ser a segunda maior economia do mundo, posto hoje ocupado pela China”, afirma Cariello.

Para o professor e pesquisador Ricardo Muccillo da Silva, que recentemente defendeu a tese de doutorado “O Sistema Nacional de Inovação da China em Transição: A Dinâmica da Atuação do Estado na Indução das Inovação Nativas – Zizhu Chuangxin”, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a capacidade de gerar inovações tecnológicas é tratada como um ponto fundamental para o desenvolvimento econômico da China.

“O 12º Plano Quinquenal (2011-2015) reforçou o pensamento estratégico do governo em promover um ecossistema favorável às inovações e à modernização tecnológica do país. Além disso, foram abordadas questões sobre o combate aos problemas ambientais causados pela forte poluição do país. O 13° Plano Quinquenal (2016-2020) também tem uma preocupação especial com a poluição ambiental e o fornecimento de recursos naturais básicos para a sustentabilidade do crescimento do país”, afirma Silva. Os planos quinquenais são modelos seguidos pelo governo chinês como guias para o desenvolvimento do país a cada cinco anos, quando são revisados e atualizados.

Silva ressalta pontos importantes do 13º plano que apontam para a inovação:

a) investimento forte em novas fontes alternativas de energia e de “tecnologia verde”. Um dos desafios do novo plano é proporcionar a harmonia entre o crescimento econômico e o meio ambiente;

b) empreendedorismo popular com a criação de novos negócios;

c) criação de tecnologias sociais com a intenção de solucionar problemas locais;

d) aumentar a capacidade do país em gerar inovações nativas, diminuindo a dependência tecnológica do país;

e) criação de marcas chinesas globais;

f) melhoria constante nos indicadores de ensino do país. No ensino superior, o objetivo é colocar as instituições de ensino da China entre as melhores do mundo.

g) maior integração da indústria civil/militar. Este item representa o grande investimento do Estado da China no desenvolvimento da indústria bélica e sua integração com o Sistema Nacional de Inovação do país.  

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