Plástica chinesa sobre o Brasil

Plastic City (2010) é um filme sobre o Brasil dos senhores chineses da pirataria originária da Ásia feito com olhar chinês, o do diretor Yu Lik-Wai, de Hong Kong – um dos únicos que dirige, pois os trabalhos de Yu são principalmente como diretor de fotografia de outro diretor, o chinês Jia Zhangke, recentemente personagem de um documento de Walter Salles.

Mas voltando a Yu, que aparece no filme de Salles, aliás. Em 2003, o diretor asiático se apaixonou pelo caos de São Paulo, achou a cidade parecida com a terra natal e resolveu dar asas a um projeto ambicioso – e pleno de licenças poéticas.

A produção que tem dedo chinês, japonês e brasileiro aportou na Liberdade, o bairro oriental de São Paulo, para contar uma história que tem como inspiração outro chinês, Law King Chong, conhecido como o maior contrabandista do Brasil, dono de shopping na 25 de Março e figurinha fácil dos noticiários entrando e saindo da prisão entre uma brecha legal e outra.

Yu disse que queria neve em São Paulo e fez nevar. Assim como ali fez o mar. E na Amazônia botou um tigre siberiano, além de ter feito da selva o ponto de encontro indígena-asiático, onde todos se esbarram, basta dobrar à esquerda na placa para lá do fim do mundo, onde começa o Brasil, ali no Oiapoque. Da terra brasilis, teve muito mais, teve favela, teve o credo cego nas igrejas estilo Universal (destas pentecostais que se espalham feito rastilho de pólvora salvando as almas de corpos de gente que se sente sem ter onde cair morta), teve o povo pobre, a corrupção, a violência, a prostituição e a simbiose dos asiáticos com o caldo já misturado de brasilidade. Pivetes ensaiando em pista de skate o que seria kung fu e finalmente uma luta de gangues numa cena plástica com mistura de animação e realidade cheia de clichês – apesar de o diretor negar que haja qualquer lugar comum no seu olhar oriental sobre o Brasil. Foi luta de gangue com espada.

A produção aportou no Brasil com prazo apertado, gravar tudo em 42 dias. E lasca o diretor:

– Eles são muito americanizados, seguem os padrões da indústria americana de cinema, trabalhando apenas 12 horas por dia, e ainda querem intervalo para almoço.

Parece que o estranhamento de Yu é o mesmo da equipe dona da casa. Perguntada sobre qual a principal diferença no fazer cinema chinês e brasileiro, a atriz Tainá Muller, que encarna Rita no filme, responde:

– A rapidez. Eles filmam com um ritmo que nunca tinha visto no cinema brasileiro. Eles também acham estranho essa coisa de parar para almoçar, ter folga… (risos). Mas eu não esperava diferente. Quando morei na China chegava a fazer um catálogo de 200 roupas em menos de quatro horas. É o ritmo dos chineses. Outra coisa que achei diferente foi a preocupação com detalhismo, o cuidado com a estética e a fotografia. Não que no Brasil não tenha, mas acho que culturalmente os chineses são mais atentos aos detalhes e isso acaba imprimindo na tela.

plasticcity

Sobre como os brasileiros irão ver o filme:

– Eu acho que essa questão é realmente um mistério (risos). Não sei mesmo o que os brasileiros vão achar do filme. Quando assisti, achei muito curiosa a leitura do Yu Lik-wai. Por exemplo, tem uma cena super violenta de assassinato que ele colocou de trilha sonora um forró. E não é que combinou? – diz a atriz.

Tainá contracena com o japa Jô Odagiri, escolhido a dedo pelo diretor, mas cuja limitação da língua acabou por deixar o samurai dublado tanto em português quanto em mandarim. Pena. O peso pesado do filme é o Anthony Wong Chau-Sang, que vive o chefão Yuda. Para o público asiático, ele é o cara dos filmes de gangues e máfias. E tá dublado bem poucas vezes, para sorte dele.

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