PR sino-brasileiro: deliciante e desafiador

Promover uma campanha de comunicação eficiente entre brasileiros e chineses é uma tarefa tão deliciante quanto desafiadora. O contato de representantes de governos, entidades e empresas com a imprensa é pródigo em gerar causos, estranhamentos e, claro, finais felizes.

A parte mais fácil do trabalho de quem faz a intermediação entre entrevistados e imprensa é que há muita curiosidade de um lado e outro, então pode-se dar por certo que a mensagem chegará à grande mídia, às redes sociais e provavelmente aos stakeholders necessários. A parte mais do que desagradável é que a mensagem pode vir cheia de ruídos. O motivo é óbvio: um abismo cultural que não se resume ao idioma, mas às formas como agem corporações, governos e imprensa de um e outro lado do globo.

Via de regra, os chineses não gostam de enfrentar jornalistas em coletivas de imprensa ou mesmo em um bate papo em que não há qualquer confiança no off. No Brasil, poucas empresas chinesas têm uma equipe de comunicação, e entre as que têm, muitas preferem atuar discretamente, com raras aparições, quando há certeza de divulgação positiva. Trabalha-se muito e mostra-se o resultado. Se o trabalho está em andamento ou  resultado não é satisfatório, prefere-se o enclausuramento.  É mais do que comum encontrar nas reportagens brasileiras sobre os chineses: procurado, o representante da empresa X preferiu não se pronunciar.

Tal comportamento não reflete só o medo de uma má interpretação pelo repórter brasileiro, mas a falta de cultura de um relacionamento mais estreito entre equipes de comunicação corporativas – que são recentes na China – e a imprensa, isso mesmo na terra natal. Em um mundo mais afeito a press releases, poucas perguntas e muita versão oficial, até mesmo as questões são enviadas previamente a empresas e órgãos do governo antes de coletivas. E embora perguntem muito, os jornalistas chineses são pouco afeitos a deixar o entrevistado em uma saia justa, quase o oposto da cultura brasileira, em que o profissional não se sente intimidado e pergunta mesmo.

Daí a importância de uma boa intermediação, a fim de que se minimizem riscos quando é iminente uma fala, ou quando há uma boa notícia. Porque imaginar que não falar é a solução é também confiar demais na sorte. Na falta de fontes chinesas, muitos brasileiros e supostos sinólogos acabam por serem porta-vozes ou comentaristas de realidades que sequer dominam. Receita para ampliar desentendimentos e respingar na reputação de empresas e governos chineses.

Há casos clássicos, como o do suposto interesse do banco ICBC em patrocinar a Arena do Grêmio, em um negócio intermediado por um brasileiro que representaria os chineses. Os executivos ficaram sabendo de toda a história pela imprensa brasileira e mal sabiam como responder. Preferiram não fazê-lo. A versão final, claro, foi a de que os chineses deram para trás.

entrevista

Do lado de lá, brasileiros são alvo de muita atenção por parte da mídia chinesa, quando em viagem à China, desde que façam a coisa certa. Coletivas sobre negócios, agricultura, esporte, moda, cultura, o que for, dá audiência. É tanto veículo importante – dos nacionais aos relevantes locais – que é difícil fazer coletiva com menos de 18 mídias diferentes. A não ser que, outro caso clássico, o brasileiro resolva fazer a divulgação contando com ajudas não especializadas ou convocando a imprensa a partir de material em inglês. Parece piada, mas acontece bem mais do que se imagina. Às vezes fica complicado até identificar o endereço (existe uma regra básica na China que ensina: sempre tenha em mãos os endereços em caracteres). Pois é…

Há casos ainda de assessor dar como meio de contato um email do Google (que leva uma eternidade para abrir na China, quando abre) ou enviar convites ainda no Brasil e indicar como contato o telefone do escritório brasileiro, não contabilizando as 11 horas de fuso horário que separam chineses e brasileiros.

Quando dá tudo certo no evento, embora tenham mais traquejo no trato com a imprensa e enfrentem jornalistas pouco dispostos a eventuais confrontos, os brasileiros, quando são eles os entrevistados, pecam justamente nos detalhes. Tradutor despreparado pode ser outra encrenca, já que os idiomas não têm qualquer traço de semelhança. Nem sempre o inglês salva. Muitos se afligem com o tempo de entrevistas acompanhadas de tradução e dão respostas curtas ou evasivas. Houve quem recusasse dar uma resposta, porque “quem me acompanha, sabe que não falo disso”. Grosseria desnecessária. Não, senhor entrevistado, os jornalistas chineses não acompanham o seu dia a dia no Brasil.

Agora, entrevistas, encontros e uma relação intermediada com afinco revelam interações bem sucedidas, ampliação da reverberação das vozes locais em veículos internacionais (e não de um brasileiro falando sobre China no Brasil e de um chinês falando sobre Brasil na China – o que pode ser bom para dar outras tintas às reportagens, mas não pode se tornar a regra) e reforçam laços de dois países que têm no horizonte relações cada vez mais estreitas. Com muitos ou poucos percalços.

Pin It

Leave a Reply